Quer fazer o que ama? Esqueça os rótulos!

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Escrito por Carolina NalonColaboração Natália Menhem

Quem você acha que mais ama o que faz,

um médico ou um motorista de ônibus?

Para a maioria das pessoas é muito mais fácil associar a ideia de fazer o que se ama com profissões “cool” ou cheias de prestígio,  com trabalhos de cunho intelectual e que pagam muito bem do que com aqueles que não são reconhecidos por esse fatores.

O trabalho de um médico é salvar vidas, poucas profissões tem um propósito tão nobre quanto esse, certo? Já um motorista de ônibus fica o dia todo dirigindo por caminhos repetidos,  executando um trabalho essencialmente mecânico e sem grande propósito para humanidade.

Eis aí a armadilha de quem quer fazer o que ama: o julgamento raso. Eu não poderia definir se um pessoa ama o que faz sem antes saber COMO essa pessoa faz o que faz e qual o significado daquele trabalho para aquela pessoa em especial. Por causa desses rótulos tem muita gente hoje infeliz com o trabalho pois na busca por profissões “superiores” ou apreciadas pela maioria, acabam fazendo o que não gostam.

Às vezes é preciso muita coragem para buscar e assumir o trabalho que tem a ver com a gente. Um exemplo disso é um amigo meu chamado Leonardo que foi meu veterano na faculdade. Nós cursamos Ciências Biológicas na Esalq (USP de Piracicaba) juntos. Durante a faculdade ele focou sua pesquisa principalmente no campo da herpetologia,  que é o estudo dos répteis e anfíbios, participou de congressos, fez iniciação científica, 2 anos de mestrado e muitas outras coisas relacionadas ao assunto. Trabalhou duro durante 7 anos na universidade e depois que se formou sabe o que ele foi fazer?

Virou motorista de ônibus. Olha só o figura:

E não virou motorista porque não havia oportunidades dentro da Biologia, mas sim porque ônibus sempre foi uma de suas maiores paixões. Hoje ele trabalha na Viação Paraty, onde além de dirigir também é responsável por coordenar as escalas e fiscalizar o andamento das linhas.

Pode ter gente que olha e acha estranho, “puxa mas o cara fez USP para virar motorista?”

E daí!!!!?

O cara está feliz vivendo diariamente em contato com a sua paixão, quem dera se todos os motoristas de ônibus fizessem seu trabalho da forma como ele faz. Olha só um dos depoimentos que ele fez no Facebook:

Você percebe o significado que ele dá para a sua profissão?

 “…nós que transportamos a carga mais valiosa que existe a VIDA”.

Por outro lado, tem um montão de pessoas em profissões mais “glamourosas” que não colocam nem metade da alma e coração que Leonardo coloca no trabalho. Ou seja, trabalham com algo considerado “glamouroso” pelo mainstream, mas com o qual não se identificam em nada, o que faz com que seja muito difícil se realizarem no trabalho.

Esses exemplos me levam a pensar que qualquer pessoa pode trabalhar no que gosta, mas que tudo depende da forma como ela enxerga e dá significado à sua própria profissão e à forma como ela se relaciona com o trabalho, de uma forma geral: qual significado o trabalho tem na vida de cada um?

Isso na verdade já foi objeto de estudo e é retratado no livro Felicidade Autêntica, escrito por Martin Seligman, fundador da Psicologia Positiva. Nele Martin diz:

“qualquer tarefa pode tornar-se uma vocação, e qualquer vocação pode tornar-se uma tarefa. Um médico que veja seu trabalho como uma tarefa a cumprir e esteja interessado simplesmente em ganhar dinheiro não tem vocação; um coletor de lixo que veja seu trabalho como a missão de fazer o mundo mais limpo e mais saudável para se viver tem vocação”

Os responsáveis por essa descoberta foram a professora da Universidade de Nova York,  Amy Wrzesniewski e seus colegas. Eles estudaram 28 serventes de hospital cujas tarefas eram basicamente limpar quartos de um hospital. No estudo, notaram que os serventes que veem o trabalho como vocação fazem de tudo para torná-lo significativo. Eles se consideram importantes para o processo de cura, e se organizam de modo a conseguir o máximo de eficiência. Antecipam-se às necessidades de médicos e enfermeiros, para que estes tenham mais tempo de se dedicarem ao tratamento propriamente dito. Chegam a fazer mais do que seria sua obrigação, tentando alegrar a vida dos pacientes. Os serventes sem vocação viam seus trabalhos como uma simples limpeza de quartos.

De acordo com esses estudos existem três formas de enxergarmos nosso trabalho:

Tarefa – é quando você faz um trabalho simplesmente em troca do pagamento no final do mês, sem procurar outras recompensas. É apenas um meio a serviço de um fim, como por exemplo, sustentar sua família. Se não há pagamento você se afasta.

Carreira - é quando você vincula seu trabalho a um investimento pessoal mais profundo. Suas realizações são marcadas pelo dinheiro, mas também pelo progresso profissional. Cada promoção traz mais prestígio e poder, além do aumento de salario.

Vocação - é quando você tem um compromisso apaixonado pelo trabalho. Pessoas que sentem que têm uma vocação veem seu trabalho como uma contribuição para o bem maior, para algo além delas. O próprio trabalho é fator de realização e continua sendo, ainda que não haja grandes quantias de dinheiro ou promoções envolvidas.

Dan Ariely também fez alguns experimentos interessantes relacionados a felicidade no trabalho, e mais uma vez o sentimento de significado apareceu como algo fundamental para nos sentirmos importantes e felizes com nossas profissão.

Por base nisso, não seria errado dizer que qualquer um pode fazer o que ama dependendo do significado que dá a seu trabalho. Obviamente também não estou dizendo que o seu gosto pelo trabalho é decidido exclusivamente pela forma como você o enxerga, e isso também não pode legitimar qualquer trabalho. Não acredito, por exemplo, que uma criança que trabalhe por 14 horas diárias em uma fábrica de roupas ou adultos que trabalhem de sol a sol na colheita da cana em condições insalubres de vida,possam enxergar seu trabalho como uma forma de aumentar a auto-estima e felicidade das pessoas que vestirão aquelas roupas ou daquelas que usufruirão daquela cana, uma vez que aqui estamos falando de casos de violação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948), e da Convenção dos direitos das crianças (ONU, 1990). Nesse caso, esse trabalho está sendo feito de forma indigna e sem condições mínimas de salubridade e respeito com o ser humano.

Vejo muitas pessoas dizendo que fazer o que ama é algo somente para quem tem dinheiro e pode largar tudo para  viver mochilando em lugares paradisíacos e trabalhando como freelancer. Discordo plenamente desse discurso. Acho que o significado pode ser encontrado em diversos tipos de trabalho e que mais pessoas vão se sentir felizes fazendo o que fazem se conseguirmos diminuir nosso julgamento em relação aos “rótulos”  e observarmos mais gentilmente e empaticamente como as pessoas fazem o que fazem. Mais do que descobrir o que é fazer o que ama para os outros, é essencial olharmos para dentro: saber o que nos satisfaz como trabalho, o que esperamos do nosso trabalho a curto e longo prazo, como nos sentimos felizes com as nossas profissões, o que significa, para cada um de nós, estar indo bem na carreira? Quando nos vemos conectados com os nossos propósitos de vida, e com nossos valores, forças e virtudes, a decisão de fazer o que se ama fica mais leve e natural, menos etiquetada e influenciada pelo externo.

Toda atividade no mundo tem um propósito, fazer o que se ama é uma questão de entender como os seus principais propósitos, suas forças e sua disposição em aprender com suas experiências se alinham com as suas atividades profissionais. Não precisa necessariamente ser de bermuda, fazendo um trabalho cool, em um ambiente moderninho. Também não estamos falando aqui de brilhantismo: fazer o que se ama tem muito mais a ver com disposição em aprender e em muitas horas de dedicação do que com já ser brilhante em algo (raramente nascemos brilhantes em uma área de conhecimento sem nunca ter nos dedicado a ela). Nem precisa “largar tudo”. Talvez, “largar todos” (os padrões e rótulos alheios) e assumir que vai se dedicar à própria vocação.

Sigo apreciando quem coloca a alma no que faz e espero de verdade que o mundo se contagie cada vez mais com essas pessoas.

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